Opiniões que gostei de ler # Papa Francisco, o equilibrista de Deus

Liu Ming, o médico chinês do Papa que o atendeu e lhe devolveu a saúde quando este era arcebispo de Buenos Aires, anda preocupado. E é para estar. Mas não só pela desumana agenda do Pontífice, que diminui muito as forças de um homem de 78 anos, mas porque Francisco, além do seu carisma sacerdotal, tem vocação de equilibrista. Os seus saltos, piruetas verbais e últimas denúncias confirmam os altos riscos que assume e acabariam com os nervos de qualquer um. (…)
O que muitos ignoram é que nesta cruzada para fora e para dentro da Igreja, os disparos mais perigosos procedem de casa. (…)
Algo neste comportamento reporta confiança. Na minha opinião, Bergoglio experimentou uma profunda vivência interior. Os orientais chamam-na de “iluminação”, os ocidentais de “ilustração”. Assim como Inácio de Loyola, em sua visão do Cardoner, viu claro. Basta comparar as fotos do cardeal bonaerense, quase sempre sério e preocupado, e as do actual Papa, revestido de uma alegria, de uma coragem e inteligente prudência que rompe esquemas.
Francisco pode estar cansado, porque, caso contrário, na sua idade, não seria um ser humano. Mas o seu espírito é livre. Por dentro não teme ninguém, nem as metralhadoras dos mafiosos, nem as gestões dos corruptos, nem os imobilismos dos “católicos de toda a vida”. Não quer vidros à prova de bala no seu papamóvel, nem entrincheirar-se no prestígio do luxo ou do protocolo. Mostra aquilo de Paulo de que o espírito está acima da lei. As suas únicas armas são uma autenticidade espontânea e confiável e um alinhamento com os mais pobres e pequenos deste mundo. A partir daí, pode acontecer-lhe qualquer coisa. Não parece importar-lhe. Dir-se-ia que vive o agora como fora do tempo. Talvez como quem não quer nada para si, porque já tem tudo.
© Pedro Miguel Lamet | 08.07.2014 – El Mundo | vide tradução e texto completo no  iMissio

Hein??? # Café com manteiga

Começar o dia com uma chávena de café cheia de manteiga é algo que não passa pela cabeça de muita gente. Excepto nos Estados Unidos da América. A moda de juntar colheres de manteiga ao café já se tornou tendência do outro lado do Atlântico e os criadores defendem que a receita, chamada “Bulletproof Coffee”, torna o corpo mais saudável. O primeiro impulso é de repulsa. Café com manteiga não parece ligar de maneira nenhuma. Só que entre os corajosos que tentaram a mistura em casa há muitos que já não passam sem ela. CRAZY PEOPLE!!!
Sara Otto Coelho | 19.06.2014 © Observador (texto completo aqui)

Coffee

iRead # A língua de Miley Cyrus

O que leva uma jovem, para não dizer uma criança, a escrever num cartaz: «Miley, dá-me a tua língua«? Esta imagem incomodou-me. Foi captada à saída do Meo Arena, no final do concerto que a cantora norte-americana deu recentemente em Lisboa. A criança estava em estado de quase histeria. Tinha acabado de ver o espetáculo da sua (curta) vida. Não pedia o coração, nem sequer o fígado, queria a língua da cantora.
Para quem não sabe, o cartaz promocional da digressão mundial de Miley Cyrus é, precisamente, uma imagem sua, de língua de fora, a lamber o reflexo da sua própria língua num espelho. Uma imagem carregada de erotismo e na linha do comportamento mais recente desta cantora que tem primado por atitudes com forte carga sexual, no sentido de chocar.
Pessoalmente não fico particularmente chocado com essas atitudes. Para mim não passam de uma imagem criada para vender um produto. São um embrulho (de mau gosto) para uma cantora que no passado esteve ligada à Disney e a um imaginário mais infantil e que, agora, precisa de se demarcar dessa imagem e desse imaginário.
O que me choca é ver uma criança a caminho da adolescência a pedir, em histeria, a língua de Milley. O que quer esta criança? Será que sabe, sequer, que significado mais profundo tem esse gesto narcísico e de prazer sexual. E os pais desta criança? Sabem que a filha fez este pedido? E sentem-se preocupados com isso?
Quero acreditar que a maioria dos pais sentiria alguma preocupação, mas na mesma peça televisiva em que aparecia esta criança também pude ver o comentário de uma mãe que acabava de acompanhar a sua filha no referido espetáculo. Essa mãe minimizava a carga sexual do show, bem como as atitudes da cantora. Possivelmente tem razão. Não dar muita importância aos factos talvez seja a melhor forma deles não terem importância.
Fico, apenas, com uma dúvida. Será que essa é uma atitude inteligente? Ou haverá aqui uma grande falta de preparação para lidar com estas questões e saber falá-las com os filhos? Ou ainda, será que a própria mãe concorda que acima de tudo o que está aqui em jogo é a felicidade pessoal que tem diversas formas de se exprimir, não sendo condenável qualquer atitude mais radical porque todos têm direito a ser felizes, respeitando a opinião dos outros?
O que essa mãe não descobriu, ainda, é que a felicidade construída sobre mim mesmo não tem raízes para existir. A minha felicidade é tanto maior quanto mais for construída na base de eu ser agente da felicidade dos outros. É assim na vida em geral, no casamento, nas relações familiares… Foi essa a grande novidade de há 2000 anos e não se trata de um embrulho nem visa vender qualquer produto. É a vida, vivida de outra forma, longe do mainstream dos dias de hoje. Isso sim é subversivo. Lamber o reflexo da sua própria língua é apenas um gesto bem menor.   
Paulo Nogueira © SNPC | 24.06.14