«Podemos igualmente abordar a importância da compaixão através da inteligência e do raciocínio. Se eu ajudar uma pessoa e lhe mostrar o interesse que tenho por ela, acabo por também beneficiar disso. Todavia, se eu fizer mal aos outros, talvez venha a encontrar-me em dificuldades. A nossa inteligência pode ajudar-nos a ajustar a nossa atitude a este respeito. Se a utilizarmos bem, podemos descobrir como levar a cabo o nosso interesse próprio levando um tipo de vida compassiva. Podemos, inclusivamente, usar o argumento de que ser compassivo é, em última análise, a melhor forma de egoísmo. Com efeito, o verdadeiro amor deve começar por ser direccionado para nós. Neste contexto, não creio que o egoísmo esteja errado. Gostar de si próprio é fundamental. Se não gostarmos de nós, como havemos de amar os outros? Há dois sentimentos de ‘eu’ diferentes. Um deles, que não hesita em fazer mal às pessoas, é negativo e só nos traz problemas. O outro, baseado na determinação, na força de vontade e na autoconfiança, é um sentimento de ‘eu’ absolutamente necessário. Sem ele, como poderíamos cultivar a confiança necessária para cumprirmos os objectivos que nos impomos? De modo semelhante, há igualmente dois tipos de desejo. O ódio, no entanto, é invariavelmente negativo e destruidor da harmonia. Como diminuir o ódio? Geralmente, o ódio é precedido pela irritação. A irritação surge como uma reacção emotiva e desenvolve-se gradualmente até ao sentimento de ódio. Neste caso, a habilidade consiste em saber, antes de mais, que a irritação é algo de negativo. Sempre que a irritação está prestes a surgir, podemos treinar-nos a ver o objecto da nossa raiva sob um prisma diferente. Basicamente, toda e qualquer pessoa ou circunstância que nos provoca raiva é relativa; vista de um certo ângulo provoca-nos raiva, mas, se a virmos noutra perspectiva, talvez possamos descobrir algumas coisas boas nela. Por exemplo, eu perdi o meu país e tornei-me um refugiado. Se olhar para esta situação sob este ângulo, talvez me sinta frustrado e triste. Todavia, o mesmo acontecimento criou-me novas oportunidades – encontrar-me com pessoas de outras tradições religiosas e assim por diante. Desenvolver uma maneira mais flexível de ver as coisas ajuda-nos a cultivar uma atitude mental mais equilibrada. Este é um dos métodos. Noutras situações, por exemplo, ficamos doentes e quanto mais pensamos na nossa doença mais frustrados ficamos. Neste caso, talvez seja útil compararmos a nossa situação com o pior cenário possível relacionado com essa doença ou com o que aconteceria se tivéssemos apanhado uma doença ainda pior, etc. Deste modo, podemos consolar-nos, ao compreendermos que podia ser pior. Uma vez mais, treinamo-nos em ver a relatividade da nossa situação. Se a compararmos com algo de muito pior, isso reduz imediatamente a nossa frustração. Similarmente, quando as dificuldades surgem, talvez elas nos pareçam enormes se as olharmos de perto, mas, se olharmos para o mesmo problema numa perspectiva mais alargada, ele parece logo menos importante. Graças a estes métodos e ao desenvolvimento de uma perspectiva mais vasta das coisas, sempre que tivermos de enfrentar problemas poderemos diminuir a frustração. Talvez precisem de um esforço constante, mas, se o aplicarem deste modo, verão que o vosso lado irritado irá diminuir. Enquanto isso, o vosso lado compassivo vai-se fortalecendo e o vosso potencial positivo desenvolvendo. Combinando estas duas abordagens, uma pessoa negativa pode tornar-se numa boa pessoa. É este método que utilizamos para efectuar esta transformação.» (Continua)
em “A Compaixão: Fundamento da Felicidade Humana” por Sua Santidade o Dalai Lama
Quando reli e meditei este excerto identifiqui-me, de imediato, com a mensagem inter-religiosa que nele é transmitida. É uma mensagem de esperança. Mas não se trata duma esperança passiva, mas sim de uma esperança activa. A esperança que temos na salvação para uma vida gloriosa tem que começar na nossa vida mundana. Não foi isso que Cristo nos ensinou? Não é tarefa fácil, mas eu vou esforçar-me! Pelo menos é essa minha intença, é essa a força que peço ao Espírito Santo, para que, assim, possa ser mais compassiva.
Susana Faria