Arquivo para Fevereiro, 2008

Fazer silêncio e procurar o transcendente na Quaresma

Padre Luís Rocha e Melo propõe um itinerário de reflexão e busca interior no tempo de preparação para a Páscoa

A Quaresma é um tempo de pausa. A Páscoa enquanto tempo forte na vida cristã é um apelo forte à conversão e esta conversão pode significar a transformação da própria pessoa. O Padre Luís Rocha e Melo apresenta uma proposta de “tornar o transcendente mais acessível”, pois é importante que “cada um desça ao fundo de si próprio sem medo daquilo que possa encontrar”, afirma ao Programa ECCLESIA.

Esta proposta de reflexão não é facilmente aceite. Mas esta dificuldade não é apenas própria do nosso tempo. “Mas hoje mais do que nunca, porque vivemos numa sociedade onde as coisas se facilitam” e onde dificilmente se prescinde de coisas. O homem moderno e auto suficiente tem dificuldade em fazer escolhas. “Há uma cultura de facilidade, de bem estar e de qualidade de vida, que é concerteza um valor a promover mas não é um fim em si próprio”, sublinha o sacerdote jesuíta. Com tantas solicitações, o homem “tem mais dificuldade em interiorizar a sua própria vida, encontrar-se consigo próprio e com Deus”.

Apesar de tudo esta procura de espiritualidade e silêncio interior “não me parecem que sejam impossíveis”, talvez exija um esforço um pouco maior do que há 100 anos, “mas o homem é o homem e está aqui para ser aquilo que é, enfrentando os desafios do mundo contemporâneo”.

O jejum, por exemplo, como marca da Quaresma é um exemplo se sacrifício, mas que “actualmente é uma coisa praticamente simbólica”. O jejum não é um fim em si mesmo, tem por objectivo focar a pessoas, “de a ordenar”, porque com tantas solicitações, “a vida facilmente se desordena”, sustenta o Pe, Luís Rocha e Melo. Não é algo insuportável para o homem e “mesmo uma pessoa que não tenha fé tem que ter uma ascese na sua vida caso contrário não singra na vida”, afirma.

“Se até nas coisas habituais do mundo se tem que ter uma regra para conseguir um objectivo, eu diria que muito mais na perspectiva cristã e para aquele que quer caminhar para uma plenitude de vida” e o jejum e a Quaresma servem então para “preparar uma atitude de escuta do dom de Deus que está em nós”.

A sociedade moderna valoriza o externo que visa parecer interno. Proliferam propostas de ascese nos ginásios, em dietas, mas que não orientam internamente. “Atravessamos uma crise de valores”, onde o tradicional é descartável e considerado mau porque “para sermos modernos temos que deitar fora tudo o que eram antigos valores”. O Pe. Luís Rocha e Melo afirma que “na essência e estrutura do homem há valores que podem ser interpretados e vividos de uma forma ou de outra conforme as culturas e os tempos mas que não são descartáveis porque são tão verdade há 2000 anos, como na Idade Média como agora e vão continuar a ser por daqui a 100 anos – a justiça, a verdade, a sinceridade, a honestidade, a hombridade e o amor.

O Pe. Luís Rocha e Melo recebe com regularidade grupos que querem fazer um retiro por esta altura. Uma proposta para um itinerário de vida espiritual. “Precisamente porque as pessoas se sentem «afogados» neste mundo contemporâneo, procuram meios para fugir a essa opressão da sociedade, para poder respirar espiritualmente”. É isto que encontra nos grupos que recebe. “A tradição da Igreja sempre nos disse que Deus se encontra no silêncio. O deserto surge na Quaresma com o o local de silêncio, porque a pessoa está só e espera iluminar os barulhos que tem dentro, fazendo um repouso interior que traz uma paz de espírito e onde a pessoas se pode encontrar”, sublinha.

Não há grupos tipo a aderir a esta experiência. Pessoas com uma “boa caminhada espiritual, pessoas desorientadas na vida e sem saber para onde ir”, empresários e gestores católicos que também sentem as mesmas dificuldades.

Esta descoberta de um serviço à vocação através do exercício da espiritualidade “veio cedo”, dá conta o Pe. Luís Rocha e Melo. Quando entrou na Companhia de Jesus e se dedicou à vida espiritual, sentiu um pendor grande para a vida de oração e de reflexão e também para o futuro do que é a vida espiritual. E esta resposta foi surgindo.

A reflexão e os livros nunca ficaram de lado. “A formação vou buscá-la à Palavra de Deus em primeiro lugar, particularmente ao Novo Testamento, que está mais próximo de nós. A Palavra tem uma riqueza e intensidade que quando aprofundada nos pode levar muito longe”, sublinha ao ponto de o chamar “um romance de amor”, mas que “deve ser lido à luz do Espírito Santo.

Cita os místicos como fonte também do seu estudo. Santo Inácio de Loyola, em especial, como fundador da Ordem a que pertence, “por isso conheço razoavelmente bem”, mas cita também a espiritualidade carmelita “que considero de uma riqueza incalculável”, e outros como Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, Santa Teresinha do Menino Jesus, Isabel da Santíssima Trindade e Santo Agostinho.

“Santa Teresa de Ávila tema uma actualidade incalculável”, por isso aconselha a sua leitura, permitindo uma descoberta “espantosa para a vida de hoje e para o mundo de hoje”. Esta é uma proposta para o homem descer ao seu interior e fazer silêncio na sociedade barulhenta.

O tempo de Quaresma esta é uma forma de levar o transcendente ao homens através da espiritualidade e de se escutar a si próprio.

in Agencia Ecclesia, 28 de Fevereiro de 2007

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RETIRO DA QUARESMA – 15 de Março de 2008

RETIRO DA QUARESMA

Um dia dedicado à oração, ao silêncio e à intimidade com a Santíssima Trindade.

Um dia em que vamos poder viver e sentir melhor a espiritualidade do Tempo Quaresmal.

Susana Faria

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Algumas frases para reflectir em Tempo de Quaresma

“É necessário abandonar o passado à misericórdia de Deus, o presente à fidelidade, o futuro à divina Providência”. (S. Francisco de Sales)
“É melhor ser cristão sem o dizer do que dizê-lo sem o ser”. (Santo Inácio de Antioquia)
“A fé não muda as coisas; a fé muda o coração e o olhar sobre as pessoas e as coisas”. (René Pillot)
“O Ecumenismo é o caminhar comum da fé”. (Pierre Galay)
“Quando Deus ama, Ele chama; quando dá, Ele pede”. (Luigi Sartori)
“Nada é pequeno quando é grande o coração” (S. Leão Magno)
“Qualquer homem que queira abrir suficientemente os olhos percebe alguma coisa nesta «transfiguração» que pressionava ardentemente o Apóstolo Pedro a fazer uma tenda longe do mundo para prolongar indefinidamente a felicidade que experimentou ao pé do Senhor que conversava com o outro mundo. (Christian Chabanis)

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Tempo de Quaresma (1)

Bento XVI convidou a um “jejum de imagens e de palavras”, durante o tempo da Quaresma que a Igreja Católica se encontra a viver, defendendo a necessidade de “silêncio” na vida de cada um. “Temos necessidade de um espaço sem o bombardeamento permanente das imagens, de criar espaços de silêncio, também sem imagens, para abrir novamente o nosso coração à imagem verdadeira e à Palavra verdadeira”, disse. O Papa falava esta Quinta-feira, durante o tradicional encontro quaresmal com o clero de Roma, durante o qual respondeu a algumas perguntas dos presentes. Quando questionado sobre como comportar-se perante “o laicismo desenfreado” e sobre como “falar dos valores evangélicos aos jovens”, Bento XVI disse que, antes de falar de valores, é preciso ser credível e visível no seu testemunho. Respondendo depois a um sacerdote indiano, que se encontra em Roma há alguns anos, Bento XVI afrontou o tema da evangelização, retomando a Nota sobre o tema, aprovada recentemente pela Congregação para a Doutrina da Fé. “Diálogo significa respeito pelo outro, mas essa dimensão do diálogo, tão necessária, precisou, não exclui o anúncio do Evangelho, dom da Verdade que não podemos guardar somente para nós mesmos, mas devemos oferecer também aos outros”. “Missão não é imposição, mas é oferecer o dom de Deus deixando que a Sua bondade nos ilumine, do contrário, faltaremos com um dever. Seríamos infiéis também nós se não propuséssemos a nossa fé, mesmo respeitando a liberdade do outro”, prosseguiu. Neste contexto, lembrou que muitos não-cristãos falaram da importância da “presença do cristianismo”, citando Ghandi. “Para Ghandi, por exemplo, o Sermão da Montanha era um ponto de referência que formou toda a sua vida. O trabalho missionário é fundamental. Diálogo e missão não se excluem, mas, aliás, um evoca o outro”, disse.

Fonte: Agência Ecclesia

«Necessidade de fazer silêncio na vida de cada um»! Ao ler estas palavras apercebi-me que o Papa Bento XVI está bem consciente da realidade actual e íntima do ser humano. De facto é cada vez mais difícil, ou será incómodo?, fazer silêncio… em casa, no trabalho, na rua, no nosso grupo de amigos, na nossa confissão religiosa, mas, em especial, na nossa vida! Os dias são vividos em 24h de corrida. Ganha quem correr mais depressa, o que chegar mais longe. Trabalha-se muito, passa-se muito tempo nos transportes públicos e privados, mas vive-se pouco em família e com os amigos. Vive-se ainda menos a nossa intimidade. Pode haver quem ao ler as minhas palavras pergunte: “que intimidade?”. Essas pessoas não perceberão as palavras de Sua Santidade o Papa Bento XVI. Também não perceberão as minhas quando pergunto: “que tempo dedico eu, na minha vida, à meditação e à oração?”. Talvez seja mesmo necessário um «jejum de imagens e de palavras»…

Susana Faria

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Yoga e Fé – Testemunho de um padre católico

Pratico Yoga desde Outubro de 2007. A minha aproximação a esta actividade deu-se por motivos de saúde. No entanto, o Yoga tem-se revelado uma fonte de inspiração na minha vida. Mas durante todo este processo tenho-me interrogado até que ponto a prática do Yoga é compatível com a minha religiosidade cristã. Talvez porque tenha desde sempre associado o Yoga às religiões orientais… Foi fácil perceber que os valores e princípios do Yoga são transversais a qualquer religião ou culto que valorize o amor e a vida. Mesmo assim fiz uma pesquisa na internet e encontrei um sítio simplesmente fabuloso (www.profhermogenes.com.br) que dá a conhecer a vida e actividade de José Hermógenes de Andrade filho, actualmente com 86 anos! Dedicou grande parte da sua vida ao Yoga e nos seus inúmeros livros explica como a prática e os princípios do Yoga são plenamente compatíveis com o cristianismo. Neste post convido-vos a ler um mensagem de um padre católico praticante de Yoga.

Susana Faria

«Muitas pessoas perguntam-e  se um cristão pode praticar Yoga, o qual inadvertidamente identificam como uma religião ou uma filosofia estranha. Não falta, inclusive, quem considere o yoga um caminho que, segundo elas, pode afastar alguém da fé. Deixarei aqui registrado meu depoimento como padre católico. Aprendi com o Yoga durante o período em que precisei, de maneira especial, dessa disciplina para superar uma extrema tensão e cansaço. As leituras dos livros do Professor Hermógenes, que mais tarde conheci pessoalmente e a quem muito prezo, foram, sem sombra de dúvida, um caminho que até hoje me devolvem o controlo de mim mesmo em situações difíceis. Junto à Bíblia, tornou-se os seus livros ajudam-me a permitir que as tensões não se somatizem. Em nenhum momento ninguém, nem livro algum me influenciou negativamente ou desviou a minha fé em Jesus e na minha Igreja. Só cresci com essa disciplina. Hoje, quando me perguntam sobre o Yoga, respondo que é um conceito de vida rico em sabedoria, não importa de onde ou de quem tenha vindo, porque sei que nele está o dedo de Deus. O verdadeiro mestre de Yoga é como o verdadeiro pregador do cristianismo. Oferece um caminho e respeita os passos e a direção de quem o ouve. Se alguma vez o Yoga influenciou algum cristão, imagino que não tenha sido para o erro. A pessoa provavelmente já devia estar confusa. Yoga e cristianismo são duas disciplinas que só me fizeram bem. Continuo um evangelizador sereno e tudo o que li e aprendi jamais me levou ao conflito. Fiz as minhas escolhas como Paulo, que soube aprender e até elogiar outras culturas. Cristãos serenos aprendem com a serenidade dos outros. Os menos serenos procuram com uma lente de aumento os defeitos dos outros e fazem de tudo para não aprender. Gostam muito de ensinar, mas negam-se a aprender. E isso não deixa de ser um tipo de fanatismo. Nunca tive dificuldade em assimilar o que é bom em todas as filosofias e práticas de outros povos. Nunca foi necessário fazer concessão da minha fé em Jesus. uando alguns católicos me perguntam se podem praticar Yoga, eu pergunto-lhes se alguma vez já jogaram futebol ou fizeram ginástica. Respondem que sim ¨Assimilaram os outros desportos… e não deixaram de ser cristãos¨ Lembro que o Yoga tem conceitos vindos de outras culturas, mas estes podem ser tranquilamente adaptados ao nosso modo cristão de ver a vida. O cristianismo tem muito a ensinar, mas tem muito a aprender também com outras culturas. Ser evangelizado subentende isso: é elogiar as flores dos outros e até plantá-las no próprio jardim. O Yoga é dessas riquezas que fazem bem, quando a cabeça é boa e o coração sereno. O mundo esta cheio de gente sábia. O professor Hermógenes e seus amigos sabem o quanto eu respeito sua sabedoria. O mundo teria mais saúde física e mental se os ouvisse. Que Deus os ilumine!», Padre Zézinho

in www.profhermogenes.com.br

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Espiritualidade que inspira o quotidiano

A jornalista e escritora Laurinda Alves deu uma entrevista à Agência Ecclesia. Depois de a ler recordei, com alguma nostalgia, os editoriais que a jornalista escrevia na ex-Revista Xis (do jornal “O Público”). Para recordar os bons tempos vou mimar-vos deixando aqui a entrevista.

«Agência Ecclesia – Qual a importância da interioridade na sua vida? Laurinda Alves – A vida interior é onde tudo verdadeiramente acontece. Não imagino que alguém seja capaz de atravessar os tempos e percorrer o caminho de uma vida inteira sem se interrogar a um nível mais profundo, sem se deixar interpelar pelos acontecimentos, sem reflectir e procurar no seu íntimo qual o sentido da sua vida. Saber de onde vimos, para onde vamos e o que estamos aqui a fazer é essencial e esta busca constante tem que de ser feita com essa interioridade. Ninguém vive apenas à superfície nem existem sentimentos ou emoções sem raízes e razões profundas. Daí a importância da interioridade na minha vida e, julgo, na vida de todos.

AE – Interioridade é sinónimo de espiritualidade? LA – Nem sempre. A interioridade pode levantar questões estritamente éticas, por exemplo. Há muitas pessoas que acreditam que ‘é pela ética que vamos’, como diz o filósofo alemão contemporâneo Hans Kung. Acredito que esta linha, porventura mais racional, nem sempre seja atravessada de espiritualidade embora eu própria não conceba a minha vida interior sem espiritualidade. A minha espiritualidade é a minha interioridade.

AE – Que sintonias se podem estabelecer entre espiritualidade e prática religiosa? LA – Boa pergunta mas de difícil resposta… Paradoxalmente a prática religiosa nem sempre coincide com uma verdadeira espiritualidade. Já o contrário não se verifica uma vez que uma verdadeira prática religiosa radica sempre numa espiritualidade verdadeira. Nesta lógica parece-me que o ritual religioso e o discurso da Igreja deviam ter o cuidado de afinar mais com o concreto da vida, no sentido de permitir aos crentes e praticantes traduzir a realidade evangélica para a sua realidade quotidiana.

AE – É possível cuidar de compromissos laborais, da execução de projectos pessoais e sociais e aprofundar a dimensão espiritual na vida? LA – Absolutamente. Tenho essa experiência e, por isso, digo-o sem hesitações. Admito, no entanto, que apesar de ser possível nem sempre é fácil e, por isso, é importante cultivar uma atitude ‘transversal’ que cruze todas estas dimensões. Ou seja: se a espiritualidade inspirar os projectos pessoais, profissionais e sociais, estes projectos acabam por aprofundar também o sentido espiritual e ampliar a interioridade. Está tudo ligado e se tudo for construído de forma positiva e consciente, a vida toma uma dimensão mais profunda e os nossos horizontes ficam mais amplos e em harmonia.»

Será mesmo possível que a espiritualidade seja uma faceta transversal na nossa vida? Eu acredito que sim… mas não deixa de ser tarefa difícil. Agora, que o Tempo da Quaresma se aproxima a questão impõe-se: estamos nós preparados?

Susana Faria

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